Como me Tornei Estúpido

Há três tipos de boas comédias (boas, porque as ruins não interessam): 1) as mais sofisticadas, com texto inteligente, cheio de referências espertas, mas não tão engraçadas, pelo menos não no sentido de provocar risadas genuínas; 2) as mais escancaradas, com texto francamente popular e referências menos requintadas, mas que extraem sonoras gargalhadas da plateia; 3) aquelas que conseguem unir o melhor dos dois tipos anteriores. É nesse último gênero que se encaixa Como me Tornei Estúpido, adaptação do livro homônimo do francês Martin Page, assinada por Pedro Kosovski. Autor de trabalhos reconhecidamente arrojados, como Cara de Cavalo, Edypop e, mais recentemente, Laio e Crísipo e Caranguejo Overdrive, ele aqui usa todo o seu traquejo de dramaturgo a favor de uma comédia verdadeiramente divertida.

Na história, Antônio (Alexandre Barros), um jovem de inteligência e consciência crítica muito acima da média, conclui que tais atributos nunca lhe renderam nada de proveitoso e decide se transformar em um estúpido completo. Seus amigos (interpretados por Gustavo Wabner, Marino Rocha e Rodrigo Fagundes, também encarnando outros personagens que cruzam a vida de Antônio) tentam de todas as formas demovê-lo da ideia – ademais, estúpida, no que é a ironia primeira da história – de se converter em um miolo-mole. Mas não há jeito: Antônio fará de tudo para se tornar um sujeito comum, parte indissociável da massa ignara, um zé-ninguém, nem que para isso tenha que apelar aos expedientes mais radicais, como tornar-se alcoólatra, ingerir fármacos ou até submeter-se a uma lobotomia. Irrompem do texto reflexões sobre a exigência da idiotice e da massificação por parte da sociedade como passaporte para uma vida mais feliz.

Em que pesem as liberdades com relação ao livro, apenas os fãs mais ardorosos do livro (facção comum em leitores de Harry Potter, Game of Thrones e por aí vai, mas nem tanto aqui) se sentirão traídos pela excelente adaptação de Kosovski, hábil em condensar toda a essência da trama literária em uma versão apropriada para os palcos. O diretor Sergio Módena se apropria com enorme gosto da atmosfera um tanto surrealista presente no texto, estendendo tal proposta à encenação. O cenário (do diretor e de Carlos Augusto Campos, iluminado a serviço da trama por Tiago e Fernanda Mantovani) é, funcional  e inteligente em sua recriação cena e cena a partir de poucos elementos, notadamente estantes de livros que evocam a inteligência à qual o protagonista quer renunciar.

Envergando figurinos realistas, mas beirando o inusitado (muito apropriados tendo em mente a pegada surrealista da montagem), os atores formam um time coeso, daqueles que não se imagina como substituir um sem prejuízo da montagem. A direção orquestra esse conjunto com exímia habilidade, distribuindo protagonismos. Pela própria natureza dos personagens e das falas que lhes são atribuídas, os atores coadjuvantes (Wabner, Rocha e Fagundes) levam vantagem de saída, arrancando as risadas mais sonoras do público. Cabe a Barros, na pele do protagonista, o difícil papel do anti-herói, transitando entre o humor e o patético com a desenvoltura que merece um olhar cuidadoso. Enfim, uma comédia inteligente, mas que em momento algum tem vergonha de se assumir como comédia.

[foto: Ricardo Brajterman]

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