Relações Aparentes

O namoro de Greg (Michel Blois) e Ginny (Anna Sophia Folch) ainda é recente e o rapaz já acumula motivos para desconfiar da fidelidade dela: telefonemas misteriosos em horários impróprios, vários buquês de flores de remetentes desconhecidos, uma gaveta entupida de caixas de chocolates que não se sabe direito de onde vieram. O amor que ele sente por ela, porém, se impõe. Mas a verdade é que Ginny tem, sim, um caso às escondidas – com Philip (Tato Gabus Mendes), um homem com idade para ser pai dela e, não bastasse isso, casado. Apaixonada pelo namorado, porém, a garota opta por terminar a relação secreta e ruma até a casa dele para resolver a questão, dando a Greg um evasivo pretexto de uma visita aos pais. A situação em si já enrolada vai degringolar de vez quando o jovem, tendo descoberto o endereço ao qual a amada se encaminha, decide dar uma incerta por lá – mas chega antes e passa a tomar Philip e sua mulher, Sheila (Vera Fischer) como seus futuros sogros.

Escrita pelo prolífico Alan Ayckbourn (ao que consta, o segundo autor inglês mais montado da história, atrás somente de William Shakespeare) e encenada pela primeira vez em 1965, Relações Aparentes é, de certa forma, um retrato do seu tempo: um vaudeville algo ingênuo, mais ainda em tempos cínicos como os de hoje, mas de indiscutíveis graça e elegância – com espaço até para alguma crítica social, notadamente no desconcerto dos personagens masculinos ante a crescente independência de suas mulheres, também reflexo da época. Por trás da aura de comédia à moda antiga, subsiste a engenhosidade do texto. Nas duas cenas iniciais, o autor estabelece as bases sobre as quais vão se desenrolar os mal-entendidos do quarteto, uma narrativa na qual um mísero descuido de encadeamento basta para que o conjunto venha abaixo. O desafio do texto é extensível aos atores: nem mesmo um pronome de tratamento pode ser usado em falso sem prejuízo total da encenação.

A direção conjunta de Ary Coslov e Edson Fieschi aposta nessa cômica engenhosidade do texto (traduzido por Alexandre Tenório) e investe em uma encenação sem invencionices, apropriadamente tradicional – à moda antiga, pode-se dizer, evocativa da atmosfera da peça e presente no cenário de Marcos Flaksman, nos figurinos de Marília Carneiro e na luz de Maneco Quinderé. No mesmo sentido são conduzidas as interpretações. Blois aproveita na postura corporal, nas variações expressivas do rosto e na impostação vocal o ar um tanto apalermado de Greg, contrabalançado pela objetividade graciosa da Ginny de Anna Sophia. Gabus Mendes mostra bom timing de comédia como o marido desnorteado que tenta entender o que está acontecendo, especialmente nos diálogos com Blois. Presença bissexta nos palcos, Vera injeta certa galhofa brasileira ao tom predominantemente inglês abraçado pela direção, mas conquista a plateia com seu proverbial carisma.

[foto: Caio Gallucci]

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