Anti-Nelson Rodrigues

Penúltima obra de Nelson Rodrigues para o teatro, encenada originalmente em 1974, Anti-Nelson Rodrigues é uma criação sui generis do autor – daí, naturalmente, o seu curioso nome. Em contraste com as desgraças típicas de suas tragédias cariocas (como O Beijo no Asfalto, Bonitinha, mas Ordinária e Toda Nudez Será Castigada, textos imediatamente anteriores), aqui o tom é otimista, com direito a um insuspeito final feliz. Não que Nelson tenha deixado de lado suas obsessões. Estão lá os tipos canalhas, as relações meio incestuosas, as mulheres enganosamente ingênuas, os personagens folclóricos. Sua linguagem, seu estilo, seu dom de frasista, nada aqui contradiz sua obra, preservada em toda a integridade nesta excelente montagem do Grupo Tapa, dirigida com apuro por Eduardo Tolentino de Araújo.

Logo na cena inicial, o jovem playboy Oswaldinho (Augusto Zacchi) é flagrado pela mãe, Tereza (Clara Carvalho), roubando as suas joias. O pendor por tomar aquilo que não lhe pertence é só um dos muitos atributos detestáveis do rapaz, herdeiro do milionário Gastão (Eduardo Semerjian), a quem despreza e por quem é rejeitado. Entre os mais notórios vícios do moço está a desfaçatez diante de mulheres – como Joice (Carol Cashie), uma funcionária recém-contratada de uma das fábricas do pai, da qual ele se tornou presidente apenas por influência materna. Obcecado pela garota e acostumado desde sempre a ter tudo que quer, Oswaldinho resolve conquistá-la de qualquer maneira. Mas ela é noiva, religiosa e, ao que parece, incorruptível mesmo diante do cortejo mais dedicado e das ofertas mais generosas.

A direção de Eduardo Tolentino de Araújo reforça o sentido de teatralidade na opção de deixar o elenco inteiro à vista da plateia o tempo todo – com direito a personagens que não fazem parte da cena reagindo às ações de quem faz. Fiel à atmosfera rodrigueana, o diretor preserva o indisfarçável tom de autoparódia do texto, no qual Nelson parece brincar consigo mesmo. Com algumas cadeiras, um aparador e um grande espelho no fundo que coloca o espectador em cena (referência, quem sabe, à máxima de Nelson de que seus “personagens são como todo mundo, daí a repulsa que provocam”), o cenário de Marcela Donato, iluminado por Nelson Ferreira, se presta à valorização do texto. Os figurinos, também de Marcela, refletem apropriadamente as personalidades de cada papel.

No mesmo diapasão do texto, a linha de interpretações entrega um registro mais cômico, resvalando na caricatura – mas que nunca descamba no escracho absoluto. No papel principal, Zacchi incorpora o patético do personagem, entre um apropriado charme meio crápula a sujeição ridícula à moça alvo de suas investidas. Com um quase invisível trabalho de corpo e voz, Carol mostra segurança na pele da donzela. No elenco coadjuvante, Semerjian, investindo em uma divertida empostação vocal para o seu Gastão, e Oswaldo Mendes, vivendo Salim Simão, o jornalista aposentado e pai zeloso de Joice, aproveitam as amplas oportunidades dadas por seus personagens. Cesar Baccan e Penha Pietra’s completam o elenco ao lado da citada Clara Carvalho, todos em participações certeiras.

[foto: Ronaldo Gutierrez]

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