Os Realistas

“Acho que nada de extraordinário vai acontecer com a gente hoje”, diz João, personagem de Fernando Eiras em Os Realistas, já na última cena da peça, referindo-se a ele mesmo, à sua mulher, Julia (Mariana Lima), e aos vizinhos José (Emílio de Mello) e Pônei (sim, é este o nome da personagem de Debora Bloch). Sob um céu estrelado, jogando conversa fora, bebendo cerveja e ouvindo música, a constatação do quarteto é inequívoca: de fato, nada de extraordinário vai acontecer – assim como lá se vão quase duas horas de espetáculo e nada de extraordinário se deu. Isso, claro, se esquecermos que mesmo a vida presumivelmente mais banal já é extraordinária o bastante. Tal é a tese que o dramaturgo americano Will Eno parece defender neste magnífico texto, aqui montado sob direção de Guilherme Weber.

A peça se inicia com João e Julia conversando na área externa de sua casa, quando são surpreendidos pela chegada de José e Pônei, seus vizinhos recém-mudados, que até então não conheciam. Os casais descobrem ter o mesmo sobrenome – o que só aparentemente é a única coisa que têm em comum, como o espectador mais atento deve notar. Desenvolve-se, então, uma relação entre os quatro, sempre apoiada em diálogos algo evasivos, por vezes truncados, outras tantas absurdos, evocando um realismo psicológico que não se pauta em arcos dramáticos claros. É como se não houvesse progressão da trama, mas uma série de cenas curtas quase sem interdependência. Voltando à fala de João, aqui nada de extraordinário acontece. E, no entanto, acontece tanta coisa que dá até vertigem.

No que diz respeito ao texto, estritamente, trata-se de um exercício formal dificílimo de engendrar sem obscurecer a comunicação com o público, driblando experimentalismos impenetráveis. Mas é o que Eno, nesta sua primeira peça apresentada na Broadway, faz de maneira luminosa com esses personagens. De fato, João, Julia, José e Pônei são tão reais que qualquer espectador será capaz de se identificar com pelo menos uma de suas questões – e, ao mesmo tempo, são algo suprarreais, como se fossem mais realistas do que o real. Mortalidade, solidão, casamento, medos, incomunicabilidade, todas essas miudezas, a rigor nada miúdas, são tratadas nos diálogos sem ranço de grandiloquência, mas com grande profundidade e um insuspeito humor.

Em seu sexto trabalho com uma obra de Eno, Weber aproveita todo o seu conhecimento sobre o autor para extrair o melhor desta peça estranhamente aliciante, contrabalançando as evasivas e lacunas propositais do texto no evidenciado jogo entre os personagens. Mais do que apenas visualmente belos, a cenografia de Daniela Thomas e Camila Schmidt, a luz de Beto Bruel e os figurinos de Ticiana Passos reforçam essa atmosfera meio suprarreal, defendida já no texto e estendida à direção. A esse conjunto em si de notável excelência somam-se Debora, Mariana, Mello e Eiras, um elenco daqueles de causar inveja a qualquer diretor – imbuído de verdade, estupendo em suas individualidades e ainda mais potente na contracena. Enfim, uma experiência teatral a ser degustada como uma iguaria fina.

[foto: Leo Aversa]

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