Dorotéia

Das dezessete obras escritas por Nelson Rodrigues (1912-1980) para o teatro, quatro se abrigam sob o guarda-chuva que o crítico Sábato Magaldi chamou de “peças míticas” do autor: Álbum de Família (1946), Anjo Negro (1946), Senhora dos Afogados (1947) e Dorotéia (1949). Definidos pelo próprio Nelson como exemplares do seu “teatro desagradável”, são textos que exploram a simbologia de mitos ancestrais e acabaram entrando para a história como seus trabalhos mais “difíceis” – tanto para encenadores quanto para espectadores. Assim, encenar qualquer uma já seria em si uma empreitada corajosa. No caso aqui desta montagem de Dorotéia, com o diretor Jorge Farjalla no leme e as atrizes Leticia Spiller e Rosamaria Murtinho à frente do elenco, à coragem da ideia soma-se o êxito do resultado.

A história começa quando a personagem-título (Leticia) bate à porta da casa das primas, as viúvas Dona Flávia (Rosamaria), Maura (Alexia Deschamps) e Carmelita (Jacqueline Farias). Tendo vivido até então como prostituta, ela decide mudar de vida após a morte do filho. Mas suas parentes não vão recebê-la bem: as três são acometidas por uma espécie de praga que assola as mulheres da família desde a bisavó, uma irrevogável repulsa ao sexo contraída em suas noites de núpcias. Daí a indizível e orgulhosa feiura do trio, em oposição à beleza luminosa de Dorotéia. Acrescente-se a esse quadro a presença de Maria das Dores (Anna Machado), filha de Dona Flávia, que está em vias de casar com o filho de Dona Assunta (Dida Camero) – e, espera-se, também de ser assaltada pela maldição da família.

Tal infortúnio que se abate sobre as viúvas é apenas uma das imagens bizarras, mas cheias de força simbólica, destiladas por Nelson. A casa onde vivem as três, por exemplo, não tem quartos, porque é neles que se dá o pecado. As primas chegam ao extremo de não dormir, para que seus sonhos não venham impregnados de desejos carnais. O noivo de Maria das Dores é representado por nada menos do que um simples par de botas. E a própria filha de Dona Flávia, como se verá, na verdade nasceu morta, mas, não tomando conhecimento do ocorrido, segue vivendo – até a resolução absolutamente insólita da questão. São alegorias potentes, por meio das quais o autor explora temas recorrentes em sua obra dramática, como sexo, castidade, obsessão, loucura, repressão, culpa, conservadorismo, religiosidade.

À parte essa complexidade de tintas delirantes, há, como já foi observado, entraves de ritmo inerentes ao texto original. Aqui, porém, eles surgem diluídos na vigorosa direção de Farjalla, que reforça o expressionismo da trama na estética da montagem. Cenário de José Dias, luz de Patrícia Ferraz, figurinos de Lulu Areal, maquiagem e visagismo de Anderson Calixto, tudo conspira em prol de uma atmosfera ao mesmo tempo devaneante e claustrofóbica, exuberante e opressiva. O tempo inteiro em cena, seis instrumentistas –Fernando Gajo, Pablo Vares, Du Machado, André Américo, Daniel Veiga Martins e Rafael Kalil, sob direção musical de João Paulo Mendonça – intensificam o clima de estranheza na proximidade com o público, nas roupas oníricas e na trilha sonora onipresente.

A direção de atores segue uma linha algo hierática, vigorosa, enérgica, na qual cumpre destacar com louvor a contribuição do trabalho de preparação vocal de Patrícia Maia. As curtas aparições de Dona Assunta são aproveitadas por Dida com forte presença cênica e timing de humor. No difícil papel de Maria das Dores, Anna revela um trabalho de voz e corpo de alto nível, cheio de expressividade por trás dos véus que literalmente cobrem seu corpo. Alexia e Jacqueline entregam uma composição corporal persuasiva. Senhora das intenções de sua Dorotéia, Leticia acompanha a qualidade do elenco com uma performance ao mesmo tempo sensível e potente, frágil e sensual. Mas é na interpretação superlativa de Rosamaria, expressiva e de alta voltagem, que a montagem encontra o seu epicentro.

[foto: Carol Beiriz]

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