Colecção de Amantes

Em 2014, já vivendo no Brasil havia três anos e estimulada por uma proposta surgida no curso de mestrado que fazia na UFRJ, a portuguesa Raquel André deu início a um acervo singular, que ela batizaria de Colecção de Amantes (com C mudo em “colecção”, seguindo a grafia de Portugal, ora pois). O projeto consistia – na verdade, consiste, já que ele segue em andamento até hoje – na realização de encontros de uma hora com pessoas desconhecidas, de perfis múltiplos, de qualquer sexo e de todas as idades. Uma por vez, elas se encontram com Raquel em um apartamento, onde, nas palavras da artista, os dois “ficcionalizam uma situação de intimidade, que será registrada em pelo menos uma fotografia”.

Por “situação de intimidade”, entenda-se um leque amplo de possibilidades de convívio, que transbordam o significado da palavra amante para além daquele popularmente atribuído a ela. A definição de amante, para Raquel, é sua quintessência mesma, aquela que primeiro se lê no verbete da palavra no dicionário Aurélio: “que ama”. Intimidade, aqui, pode ser dividir uma garrafa de vinho, deitar na cama juntos, assistir a um filme, usar o banheiro simultaneamente, maquiar e se deixar ser maquiada. Trata-se, enfim, de uma performance sui generis, na qual o espectador é convidado a abandonar seu habitual lugar de passividade e engajar-se no processo com a artista – tornando-se parte de sua coleção.

Seria, por si só, um trabalho meritório, não apenas pela singularidade de suas proposições estéticas como pelos questionamentos filosóficos que suscitam. Da coleção de Raquel brotam reflexões a respeito do próprio colecionismo e, por tabela, sobre a própria vida. O que, como e por que colecionamos? Colecionamos até sem saber disso? O conjunto de pessoas com quem nos relacionamos, por exemplo, é uma coleção? Completar uma coleção, se isso é factível, é também decretar a morte dela, já que uma coleção só seria viva na medida em que se está colecionando? É possível colecionar coisas impossíveis de serem guardadas, como um encontro? Admitindo que sim, como registrar e catalogar isso?

Ao conjunto de performances soma-se um espetáculo dele resultante, com o mesmo nome de Colecção de Amantes. É ali, na exposição artística das intimidades acumuladas para um público “de fora”, que o projeto se completa e se realiza em sua maior potência, elevando as reflexões citadas a um novo patamar. O teatro não é, ele próprio, da mesma maneira que os encontros de Raquel, uma experiência essencialmente fugaz? Uma peça que tenha sido encenada em certo dia, se reencenada no dia seguinte com o mesmo elenco, com cada espectador vestindo a mesma roupa e sentado no mesmo assento, será exatamente igual à da véspera? Sabemos que não. E, indo além: é possível colecionar essas vivências?

Sob direção da própria Raquel (única pessoa em cena) e de Bernardo Almeida, a montagem impressiona em sua fusão de simplicidade e significado. O cenário, assinado pela dupla, e a luz, de Rui Monteiro, recriam um estúdio fotográfico, evocativo da escolha de Raquel pela fotografia como modo de registrar os encontros. Ali, inicialmente, ela desfia um inventário ao mesmo tempo documental e poético dos mesmos. A partir daí, com uma naturalidade só possível a quem respira a sua própria obra, vai esmiuçando episódios vivenciados por meio do seu colecionismo, enlaçando o público para levá-lo a um final vertiginoso – sugestão da própria vertigem que é colecionar. Um trabalho, enfim, cheio de inteligência e sofisticação, mas – talvez o mais importante nos dias que vivemos – repleto de amor.

[foto: Tiago de Jesus Brás]

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