Lady Christiny

Somente o mundo real seria capaz de parir uma figura como Lady Christiny – fosse invenção de um ficcionista, apontariam-lhe a falta de verossimilhança. Como Celso Marques, seu nome de batismo, ele foi por dezoito anos um homem, digamos, típico, heterossexual, casado com a mãe de seus dois filhos. À certa altura, porém, ele se descobre apaixonado por um amigo e correspondido em seu interesse. Em nome da preservação da família, o casal resolve chamar o sujeito para morar com eles, mas a vida a três não demora a entrar em crise: o recém-chegado passa a cortejar também a esposa. Para ela, trata-se de um indicativo de que o rapaz gosta, na verdade, de mulheres. Assim, para manter intacta aquela estrutura familiar, Celso vira uma travesti. É esse insólito personagem que o ator Alexandre Lino, em excelente performance, apresenta no monólogo Lady Christiny.

Insólito, aliás, parece ser pouco para definir essa figura. Não fossem já curiosas o bastante as motivações para a sua transformação, Lady Christiny nutria ideias conservadoras, que o senso comum julgaria especialmente bizarras vindas de um homem que decidiu ser uma travesti para manter um relacionamento amoroso com outro sujeito. As falas destiladas ao longo da peça são reveladoras: Lady Christiny acha um horror ver dois homens se beijando no meio da rua, não se envergonha de dizer que torce para sua filha não se tornar lésbica, acredita que muito do preconceito contra os gays é culpa da promiscuidade deles próprios. Idealizador da montagem e envolvido há anos em uma pesquisa de linguagem sobre teatro documental, Lino se aproxima dessa personagem com um apropriado (e, de certa forma, até corajoso) distanciamento, que não a condena e nem a absolve previamente.

Tal abordagem encontra alicerces no texto de Daniel Porto, um passo além na crueza dramática já revelada em outras obras de teatro documental realizadas por ele em parceria com Lino. Se em O Pastor (2013), trabalho inaugural da dupla, o personagem do líder evangélico inspirava gargalhadas pelo seu próprio ridículo, aqui a desidratação de qualquer tom de autocrítica (embora tampouco haja condescendência) pode provocar um certo incômodo. A direção cirúrgica de Maria Maya tensiona esse jogo em marcações sutis e uma estética austera que reforçam o tom algo confessional com que o ator/personagem se dirige à plateia. Nesse sentido, a direção de arte de Tati Brescia (responsável por cenário e figurino), muito bem amparada pela luz de Renato Machado, é de uma simplicidade expressiva, que potencializa a intimidade com o público.

A bordo dessa controversa figura real, desprovido de quaisquer muletas cênicas e envergando um figurino resumido a camisa, calça e sapatos cáquis, o ator magnetiza a plateia com um excelente trabalho de voz e de corpo – este talvez o mais impressionante, considerando que Lino passa os cinquenta minutos de peça sentado diante de um microfone. As transições entre o narrador e a personagem são suaves, mas absolutamente nítidas, marcadas por discretas mudanças de entonação vocal, gestos, feições e postura. É em Lino que está a âncora dessa peça estranhamente distanciada, mas nunca indiferente à personagem, que entrega inteiramente ao espectador a missão de refletir sobre ela e, consequentemente, sobre o mundo. Não é isso, afinal, que se espera da arte?

[foto: Janderson Pires]

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