Love, Love, Love

É noite de 25 de junho de 1967, os Beatles cantam All You Need Is Love na primeira transmissão mundial de TV via satélite, quando a jovem Sandra (Débora Falabella) chega ao apartamento de Henry (Mateus Monteiro), em algum lugar de Londres, para um encontro. Ela é bela, inteligente, libertária e dona de uma personalidade instigante. Ele, na melhor hipótese, é um sujeito comum. Não à toa, a moça será fisgada rapidamente pela beleza, virilidade e porralouquice de Kenneth (Rafael Primot), irmão do pretendente, que está por ali, dando sopa – e demonstrando interesse recíproco. E, na primeira chance, quando Henry se ausenta por breves minutos, os dois levam adiante seus instintos.

Em Love, Love, Love, o britânico Mike Bartlett parece reiterar o egoísmo e a desumanização do outro como força motriz da ação dramática – característica presente em outras peças do autor já montadas por aqui, a ver: em Cock – Briga de Galo, a covardia de um rapaz indeciso entre dois amores mantém a vida de ambos em estado de imobilidade; em Bull, dois funcionários de uma empresa se unem contra outro quando os três veem seus empregos em risco; e em Contrações – encenado aqui pelo mesmo Grupo 3 de Teatro que assume esta soberba montagem de Love, Love, Love -, uma gerente faz um inferno na vida de uma recém-contratada a partir de uma cláusula supostamente banal no contrato de admissão.

Aqui, longe de questões amorosas ou profissionais, o dramaturgo centra fogo em conflitos familiares e geracionais. Se, no primeiro ato, a egolatria de Sandra e Kenneth atropela qualquer sentimento de culpa pela traição infligida ao namorado/irmão, tal egotismo se estenderá miseravelmente à relação deles com os filhos nas cenas seguintes. Primeiro, em algum momento dos anos 90, quando o casal (agora interpretado por Yara de Novaes e Ary França), tão concentrado em si mesmo, ignora os rebentos (papéis agora assumidos por Débora e Primot). Depois, no derradeiro e triunfal ato, quando os dois, mais velhos e separados, se veem diante de um possível acerto de contas com os filhos desajustados.

A direção de Eric Lenate (do ótimo Mantenha Fora do Alcance do Bebê, também com Débora) imprime à montagem um ritmo e um ânimo que valorizam a dramaturgia sem trair-lhe as origens britânicas – seja na cadência narrativa relativamente desapressada e rigorosa, seja na comicidade amarga. Colaboram neste sentido as evocações geográficas da cenografia de André Cortez e dos figurinos de Fabio Namatame, críveis na construção da passagem de tempo e precisos como expressão da realidade de cada personagem. A luz de Gabriel Fontes Paiva (membro do Grupo 3 de Teatro ao lado de Débora e Yara) reforça intenções e climas, fugindo à previsibilidade talvez esperada de uma peça de feitio realista.

Na mesma toada, o diretor se vale de marcas inesperadas e ricas de significados, como a opção por deixar fisicamente no palco, à vista do público, atores cujos personagens não estão de fato em cena. O efeito é particularmente belo no primeiro ato, quando Yara e França parecem olhar embevecidos para Débora e Primot – como se Sandra e Kenneth mais velhos recordassem uma saudosa e já tão distante juventude. Igualmente escancarada aos olhos do espectador, sem subterfúgios, são as transições entre os atos, com o próprio elenco manipulando o mobiliário e trocando roupas e perucas (embalados pela trilha de L.P. Daniel, hábil na mistura de Beatles, Caetano Veloso e New Kids on the Block).

Mas é na dinâmica entre os atores que a peça revela a sua maior potência. Mateus Monteiro aproveita seu pouco tempo em cena, exibindo um comedimento perfeitamente ajustado à banalidade de seu personagem. Quanto ao quarteto principal, brilhos individuais genuínos se acumulam sem prejuízo do coletivo. Débora e e Primot cumprem com enorme galhardia o périplo de seus personagens – da rebeldia arrogante de Sandra e Kenneth, à patética realidade dos filhos do casal no segundo ato, e daí ao fracasso impotente no fim. França é o retrato perfeito da autoindulgência e da superficialidade. Magnífica, Yara personifica o mais absoluto hedonismo com tintas de histeria e requinte.

Ao fim de pouco mais de duas horas do melhor teatro, simultaneamente político e psicológico, no qual questões amplas se abatem sobre o particular, Bartlett nos coloca diante de um impasse aparentemente sem solução: ser vítima do egoísmo alheio pode ter consequências funestas, é certo; mas a opção contrária, perpetrá-lo, seria menos terrível?

[foto: Leekyung Kim]

 

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