A Vida de Dr. Antônio Contada por Elle Mesmo

Nascido em uma conhecida família gaúcha nos tempos da belle époque brasileira, Arthur Antunes Maciel poderia ter vivido de forma previsivelmente respeitável, como tantos de seus pares. Acabou, porém, adquirindo fama por atos que não condiziam com a nobreza de seu berço, ao realizar um sem-número de roubos em hotéis em várias cidades do país. Vestido elegantemente e utilizando variados pseudônimos  – entre os quais Dr. Antônio acabou se notabilizando -, ele se hospedava sem chamar a atenção, estudava os hábitos dos ocupantes dos outros quartos, alvos de seus furtos, e dava no pé tão logo atingia seu objetivo. Contada no livro Memórias de um Rato de Hotel, atribuído ao jornalista, cronista e dramaturgo João do Rio (1881-1921), essa história inspira A Vida de Dr. Antônio Contada por Elle Mesmo, novo (e aliciante) espetáculo da Cia Bélica, com dramaturgia de Felippe Vaz, direção de Cesar Augusto e codireção de Fabiano de Freitas.

Eis aqui uma caso em que a forma, longe de ser um exercício de estilo, se liga intimamente ao conteúdo. A começar pelo palco da montagem: o Paço Imperial, edifício histórico na Praça XV, Rio de Janeiro, sugestivo da época da trama. Some-se a isso o fato de que a peça é itinerante: cada cena acontece em um ambiente do prédio, sugerindo a própria ideia de mobilidade que marcou a vida do Dr. Antônio. A escolha poderia se prestar ao risco de dispersões, mas tudo aqui é conduzido de maneira fluida e orgânica, com direito a uma providencial escolta ao vivo dos trombonistas Everson Moraes e Jonas Hocherman, sob direção musical de Murilo O’Reilly. A direção de arte de Bia Junqueira – coroada na potente instalação na qual se dá a última cena -, a luz de Genilson Barbosa – um desafio em se tratando do espaço em questão – e os figurinos de Antônio Guedes – em algum lugar entre a virada para o século XX e o contemporâneo – valorizam e emprestam significados ao quadro estético.

A dramaturgia de Felippe Vaz (construída a partir de uma adaptação, assinada por Renata Mizrahi, do livro de João do Rio) não se deixa obscurecer pelas eventuais inovações e exuberâncias formais – ao contrário, se integra dinamicamente a elas e tira dali o melhor proveito. Em seu desenvolvimento, a narrativa parece refletir a própria trajetória do protagonista em seus altos e baixos: parte de um drama de tintas familiares e, digamos, algo existencialistas, no qual o personagem entende aquilo que será para o resto da vida; assume, então, um ar de comédia ligeira e divertida, com pitadas de crítica social; até, por fim, chegar a uma oportuna e contundente denúncia sobre o sistema carcerário do país, quando o clima da montagem se adensa. E, na levada da montagem, tudo soa unificado, como partes de colorações distintas, mas devidamente integradas ao todo dramático – uma costura delicada que o trabalho da direção preserva em cena.

Na opção por escalar todo o elenco masculino como intérprete do protagonista, cada qual em um determinado momento da peça,  refletem-se as múltiplas identidades que o ladrão assumia para escapar incólume. Sob condução arguta dos diretores, André Rosa, Breno Motta, Danilo Moraes, Felipe Frazão, Rômulo Chindelar e Victor Albuquerque alcançam uma louvável unidade de atuação a bordo do personagem principal, além de se dividirem com versatilidade por outros papéis. Na ala feminina, Dani Cavanellas, Flávia Coutinho e Sarah Lessa enaltecem mesmo as menores possibilidades oferecidas pelos coadjuvantes. Em uma das imagens mais impactantes do espetáculo, todos se engajam em uma espécie de coro formado por Clóvis (ou Bate-Bolas), as figuras carnavalescas ao mesmo tempo sedutoras e temíveis – evocando a ambiguidade de dândi criminoso do Dr. Antônio.

[foto: Elisa Mendes]

A Tropa

Internado em um quarto de hospital, um viúvo (Otávio Augusto) é visitado por seus quatro filhos. Cada um deles trilhou um caminho distinto: o primogênito Humberto (Alexandre Menezes) é um dentista militar que mora com o pai; Artur (Edu Fernandes), casado e pai de duas filhas, trabalha em uma construtora investigada por corrupção; o jornalista Ernesto (Rafael Morpanini), em crise profissional, pediu demissão da empresa na qual trabalhava; e João Baptista (Daniel Marano), o caçula, é usuário de drogas com passagens por clínicas de reabilitação. Como se verá em A Tropa, peça do autor estreante Gustavo Pinheiro, com direção de Cesar Augusto, poderia ser uma simples reunião familiar, não fossem os rapazes unidos por mágoas profundas em relação ao patriarca, um autoritário militar da reserva.

Vencedor da etapa carioca da última edição do concurso de dramaturgia Seleção Brasil em Cena, o texto expõe as vísceras de relações que tentam desesperadamente se manter de pé. De fato, em que pesem as ressalvas mútuas que pai e filhos cultivam entre si, escancaradas sem prudência, aqui parece subsistir um íntimo desejo de manter algum nível de união da “tropa” – ainda que à força de segredos, recalques e escamoteamentos que não resistirão ao infeliz encontro familiar. Por trás de um playwriting clássico do ponto de vista formal, de pegada abertamente realista e evocações algo novelescas, o autor exibe traquejo no desenvolvimento da trama e na construção dos diálogos, além de uma organicidade na incorporação de referências e discussões profundamente atuais.

Em um interessante contraponto ao realismo do texto, o quarto de hospital recriado no belo cenário de Bia Junqueira é evocativo em seu minimalismo, sugerindo uma arena na qual os personagens se digladiam – impressão reforçada pela divisão da plateia em duas arquibancadas. A direção de Cesar Augusto, aqui assistido por Raquel André, tira o melhor proveito do bom acabamento do texto, impondo um ritmo ágil e um colorido abertamente cômico, sem descuido dos momentos de maior tensão dramática. Jovens recém-formados em artes cênicas, os quatro atores que interpretam os filhos atendem plenamente a essa linha traçada pelo diretor. Mas é Otávio Augusto quem, entre o humor e a perversidade, deleita-se com seu protagonismo e naturalmente catalisa as atenções.

[foto: Elisa Mendes]