Master Class

“Como ter rivais se elas não fazem o que eu faço?”, pergunta sarcasticamente Maria Callas, a certa altura de Master Class. Mas a verdade é que, no momento em que se desenrola a peça do americano Terrence McNally, a própria cantora já não era mais capaz de fazer o que fazia: sua voz, antes reverenciada pelo mundo, rateava, e seu espírito se via especialmente abalado desde que o milionário grego Aristóteles Onassis, seu companheiro, a trocara por Jacqueline Kennedy, viúva do presidente americano John Kennedy. Marca da vida de Callas, essa ambivalência entre soberba e insegurança perpassa decisivamente o texto, montado no Brasil em 1996, com Marília Pêra (1943-2015) no papel principal, e defendido agora com irresistível brilho por Christiane Torloni, sob direção segura de José Possi Neto.

A ação se passa em uma das aulas magna (devidamente ficcionalizada pelo autor) que Callas ministrou entre 1971 e 1972 na Juilliard School, renomada instituição de ensino de música e artes cênicas em Nova York. Ali, a diva vai compartilhar experiências com jovens aspirantes ao estrelato, ouvi-los e orientá-los – com toda a mordacidade que lhe é peculiar. Habilmente, McNally introduz nesse recorte temporal e geográfico uma série de referências à trajetória de Callas, aqui felizmente sem pretensões enciclopédicas, mas como parte mesma da narrativa – algo parecido com o que o inglês Peter Quilter fez em O Fim do Arco-Íris, para citar outra peça montada no Brasil, na qual a vida da atriz e cantora Judy Garland se revela no espaço de cinco semanas em que a ação dramática se desenvolve.

O resultado é um texto limpo, de acabamento burilado, apreciável tanto por quem conhece a trajetória de Callas quanto para quem dela sabe apenas o trivial. A montagem parece desconfiar um tanto desse alcance e recorre à exibição, antes do início da peça, de um vídeo biográfico cheio de imagens de arquivo (plenamente dispensável, ainda que não embarace o resultado). Entre esculhambações e palavras de estímulo aos alunos, a diva, mais do que sua idiossincrática personalidade, vai mesmo desnudando sua alma, notadamente em dois solilóquios evocativos de um lugar onírico, que se interpõem à ação em tempo real. Por trás da aparente caricatura de diva orgulhosa, arrogante e inflexível, o que se vê é uma Maria Callas humana em suas contradições – cheia de fragilidades, mas nunca apenas vítima.

A direção de José Possi Neto transita com desenvoltura entre o humor inerente às ironias de Callas e o viés trágico de sua história, bem como entre o tom realista da aula e o colorido apropriadamente operístico dos solilóquios da protagonista. A ambientação conferida pelo cenário de Renato Theobaldo e pela luz de Wagner Freire se situa nessa zona fronteiriça, evocando, em seu desenho abstrato, a imagem de uma câmara de concerto. No elenco, Thiago Rodrigues e Thiago Soares entregam com correção o que demandam seus limitados papéis, respectivamente um pianista e um contrarregra. Vivendo os alunos, Julianne Daud, Leandro Lacava e Jayana Paiva não chegam a alcançar nas atuações a mesma qualidade do canto. Alvo natural das atenções da plateia, Christiane Torloni entrega uma interpretação cheia de sutis modulações e, nas poucas vezes em que lhe é exigido, surpreende no canto.

[foto: Marcos Mesquita]