Como Eliminar Seu Chefe

Um tanto escondida sob a embalagem de comédia despretensiosa, 9 to 5, de Colin Higgins, lançado nos cinemas em 1980, trazia uma reflexão especialmente relevante à época sobre questões ligadas à igualdade de gêneros. Na história, escrita pelo diretor e por Patricia Resnick, três secretárias, revoltadas com o chefe autocrata, sexista e abusivo, acabam por sequestrá-lo. Quase três décadas se passaram entre a estreia do filme e sua transposição para os palcos da Broadway, em 2009, na forma de um musical com canções de Dolly Parton (intérprete, aliás, de uma das funcionárias-sequestradoras do longa, ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin). De lá para cá, mais seis anos até a primeira montagem brasileira do espetáculo, dirigida por Cláudio Figueira e com versões de Flávio Marinho. E, em que pesem os louváveis avanços, a pauta feminista levantada há 36 anos não está superada.

Na história, Júlia (Simone Centurione) é uma jovem recém-separada que vai trabalhar em um escritório. Entre os demais funcionários que a recebem está a experiente Violeta (Stela Maria Rodryigues, substituindo Tânia Alves, que integrou o elenco no início da temporada) e a exuberante Dorali (Sabrina Korgut). De uma forma ou de outra, todas são alvo do chefe Franklin Ratto (Marcos Breda), um especialista em transformar a vida dos subordinados em um inferno, com a ajuda da secretária dedo-duro Rosa (Gottsha). Eventualmente, as três acabam por se aproximar e, meio sem querer, sequestram o patrão. Que se avise logo: a trama é recheada de situações absurdas, que exigem certa suspensão da descrença. Uma vez entendido o jogo, porém, a plateia tem diante de si uma comédia família, agradável, talvez um tanto envelhecida em um ou outro ponto, mas honesta em suas pretensões.

Nesse sentido, a direção de Figueira não trai o filme, tampouco a montagem americana, preservando o tom comportadamente divertido de ambas sem esvaziar a reflexão. Há, é verdade, um ou outro senão mais perceptível na encenação, a começar pelas versões algo irregulares de Flávio Marinho para as canções de Dolly Parton (em que pese a reconhecida dificuldade de adaptar para a realidade brasileira o universo americano retratado nelas). As qualidades da cenografia de Clívia Cohen – também responsável pelos figurinos corretos, equilibrando-se com um visagismo meio desacertado – convivem com uma manipulação truncada na transição de uma cena para outra, quebrando ligeiramente o ritmo. No papel do chefe, Marcos Breda parece tentar compensar certa fragilidade vocal incorporando o tom desbragadamente cômico de sua atuação ao canto – a julgar pela reação da plateia, dá certo.

Em que pesem as ressalvas, numa daquelas mágicas que o teatro às vezes proporciona, o todo aqui se revela maior do que suas partes somadas. Decisivo para tanto, além da já mencionada desenvoltura cômica e do carisma de Breda, é o ótimo desempenho do trio principal, especialmente no que diz respeito ao canto, mas também no contagiante timing de humor (quesito em que Sabrina Korgut, ressalte-se, nada de braçada com sua Dorali). No elenco coadjuvante, Cristiana Pompeo garante divertidos momentos na pele de uma funcionária afeita à bebida, e Gottsha, como de hábito, rouba a cena nas oportunidades dadas à sua personagem. A caprichada direção musical de Liliane Secco lustra as melodias grudentas das canções e fisga a plateia. Resultado: um espetáculo adorável em sua pegada de Sessão da Tarde, que satisfaz plenamente quem busca diversão.

[foto: Guga Melgar]

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